O eyewear está atravessando um momento em que moda, identidade e tecnologia começam a se encontrar de maneira cada vez mais clara. Algumas tendências ganham força porque transformam imediatamente um look. Outras mudam a maneira como o consumidor escolhe e utiliza uma armação. E há ainda movimentos capazes de alterar a própria definição do que entendemos por óculos.
Entre os dias 4 e 10 de setembro de 2026, esses três caminhos apareceram com bastante força. Os óculos pretos envolventes continuaram conquistando espaço entre celebridades e referências de moda; a personalização ganhou destaque como forma de ampliar as possibilidades de uma mesma armação; e os smart glasses voltaram ao centro da discussão, agora não apenas pela novidade tecnológica, mas também pelas funções práticas e pelas questões de privacidade que acompanham sua popularização.
Nesta edição do Radar TNC&co, reunimos os três movimentos para entender o que eles revelam sobre o momento atual do mercado e como essas tendências podem ser interpretadas por quem gosta de óculos.
1. Os óculos wraparound continuam avançando na moda
Os óculos envolventes já vinham aparecendo entre as tendências importantes de 2026, mas a última semana trouxe mais sinais de que o formato deixou de ser apenas uma referência passageira. Em 9 de setembro, a ELLE Australia destacou justamente a presença desses modelos entre algumas das celebridades mais observadas pela moda atualmente.
Kendall Jenner, Zoë Kravitz, Suki Waterhouse, Alexa Chung, Hailey Bieber e Kaia Gerber aparecem entre os nomes relacionados pela publicação à nova onda de óculos escuros, especialmente em versões pretas e envolventes.
O que está acontecendo?
O wraparound possui uma construção diferente da maioria dos solares tradicionais. Em vez de apresentar uma frente praticamente plana, seu desenho acompanha a curvatura do rosto e se prolonga em direção às laterais. O resultado cria uma silhueta mais contínua, esportiva e, dependendo do acabamento, bastante futurista.
Durante muitos anos, esse tipo de óculos ficou fortemente relacionado ao ciclismo, corrida, esportes de velocidade e outras atividades de performance. A moda atual, porém, vem retirando o formato desse contexto específico e colocando-o ao lado de alfaiataria, vestidos, jeans, peças minimalistas e até produções utilizadas em grandes eventos.
A ELLE Australia chamou atenção justamente para essa transformação. O mesmo formato que poderia ser interpretado alguns anos atrás como essencialmente esportivo aparece agora em produções de celebridades reconhecidas por exercerem influência direta sobre tendências de moda.
Kendall Jenner também reforçou nesta temporada o interesse pelos óculos de personalidade forte durante sua passagem pelo Festival de Cinema de Veneza. A InStyle destacou um modelo escultural inspirado nos óculos usados pela colecionadora Peggy Guggenheim nos anos 1960, mostrando como armações marcantes podem assumir praticamente o papel de joia ou objeto artístico dentro de uma produção.
Por que isso está ganhando destaque?
Existe uma busca crescente por acessórios capazes de mudar completamente uma composição sem exigir muitas peças. Um óculos preto grande e envolvente consegue fazer exatamente isso. Mesmo combinado com roupas neutras, ele cria imediatamente um ponto de interesse visual.
Outra razão é a aproximação entre sportswear e moda. Tênis desenvolvidos originalmente para performance, jaquetas técnicas, peças de corrida e outras referências esportivas passaram a ocupar espaço importante no guarda-roupa cotidiano. Os óculos acompanham a mesma lógica.
Também existe um componente de contraste. Enquanto os pequenos óculos dos anos 1990 e 2000 seguem circulando, o wraparound oferece a proposta oposta: mais lente, maior cobertura e presença muito mais evidente no rosto.
Essa coexistência ajuda a explicar o momento atual. A tendência não está obrigatoriamente em um único tamanho ou formato, mas na capacidade do acessório de criar identidade.
O que isso significa para quem gosta de óculos?
Não é necessário partir diretamente para os modelos mais extremos. Existem diferentes níveis de interpretação da tendência.
Quem prefere algo mais fácil de incorporar ao cotidiano pode procurar solares pretos com lentes mais largas e laterais levemente curvas. Quem deseja mais impacto pode explorar armações verdadeiramente envolventes, com frente contínua, lentes grandes ou construção inspirada no universo esportivo.
O encaixe merece atenção especial. Como esse tipo de óculos possui maior curvatura, é importante observar apoio nasal, contato com as laterais do rosto, posição das hastes e distância entre lente e cílios. Um formato visualmente interessante continua precisando funcionar como óculos.
Para 2026, o sinal parece cada vez mais claro: o wraparound deixou de pertencer exclusivamente ao esporte e conquistou espaço definitivo dentro do repertório da moda.
2. Personalização transforma a armação em uma experiência mais flexível
Nem toda inovação no eyewear precisa envolver sensores, câmeras ou inteligência artificial. Nesta semana, outro movimento chamou atenção no mercado: a possibilidade de personalizar e modificar fisicamente o próprio óculos.
Em 9 de setembro, o Portal Opticanet apresentou a proposta da iGreen Eyewear, baseada em armações com hastes intercambiáveis. A ideia permite alterar parte da aparência do produto de acordo com estilo, combinação de roupas ou ocasião.
O que está acontecendo?
Durante muito tempo, a escolha de uma armação seguia uma lógica bastante permanente. Depois de selecionar cor, formato e acabamento, aquele seria essencialmente o visual do óculos durante toda sua vida útil.
Sistemas modulares começam a questionar essa lógica.
Quando determinadas partes do produto podem ser substituídas, a mesma frente pode assumir personalidades diferentes. Uma combinação mais neutra pode ser utilizada durante o trabalho, enquanto outra haste pode trazer mais cor ou personalidade em um contexto casual, por exemplo.
A proposta apresentada pela iGreen coloca justamente essa liberdade de escolha no centro da experiência. Em vez de tratar personalização apenas como decoração adicional, ela passa a fazer parte da própria construção do produto.
Por que isso está ganhando destaque?
A personalização acompanha um movimento muito maior do consumo. Cada vez mais pessoas procuram produtos que possam refletir preferências individuais em vez de oferecer exatamente a mesma experiência para todos.
No eyewear, isso faz ainda mais sentido porque poucos acessórios ficam tão próximos do rosto e são utilizados durante tantas horas do dia. Cor, formato, espessura e acabamento interferem diretamente na maneira como o produto participa da imagem pessoal.
O Portal Opticanet apresentou essa ideia relacionando personalização a uma nova interpretação de luxo: menos dependente apenas de raridade e mais ligada à liberdade de escolher e transformar.
Existe também uma vantagem prática. Um sistema modular pode ampliar a sensação de variedade sem obrigatoriamente exigir uma armação completamente diferente para cada ocasião.
Isso não significa que o consumidor deixará de querer vários óculos. Pelo contrário. Significa que uma mesma peça pode passar a oferecer mais combinações e permanecer interessante por mais tempo.
O que isso significa para quem gosta de óculos?
Para o consumidor, essa tendência muda uma pergunta importante. Em vez de pensar apenas “qual armação combina comigo?”, passa a ser possível perguntar “quantas possibilidades essa armação me oferece?”.
Essa lógica pode ser particularmente interessante para pessoas que utilizam óculos de grau diariamente. Quem depende de uma única armação durante boa parte do dia normalmente possui menos liberdade para trocar de acessório do que quem utiliza óculos apenas como item de moda.
Um sistema intercambiável oferece uma maneira de introduzir essa variação.
Também vale observar qualidade de construção. Componentes removíveis precisam apresentar encaixe preciso, resistência e facilidade de substituição. A proposta só funciona bem quando a modularidade não compromete estabilidade ou conforto.
Mais do que uma tendência estética específica, a personalização aponta para uma mudança de comportamento. O consumidor não quer necessariamente apenas escolher entre modelos prontos. Em alguns casos, quer participar da construção da aparência final do produto.
3. Smart glasses avançam, mas a discussão sobre privacidade cresce junto
Se os dois primeiros movimentos transformam a aparência e a experiência física dos óculos, o terceiro pode modificar completamente sua função.
Os smart glasses estiveram novamente entre os assuntos importantes da tecnologia nesta semana. O motivo não foi um único lançamento, mas a combinação de dois movimentos acontecendo simultaneamente: os dispositivos estão recebendo funções mais úteis para o cotidiano enquanto cresce a preocupação sobre câmeras, gravações e privacidade.
O que está acontecendo?
Em setembro, os Ray-Ban Meta receberam uma atualização de software que ampliou funcionalidades como navegação e áudio espacial em modelos compatíveis. O Android Central destacou que comandos de voz podem ajudar o usuário com orientações durante deslocamentos, aproximando os óculos de uma utilização mais prática fora de situações específicas.
Ao mesmo tempo, publicações como Financial Times e The Guardian dedicaram espaço ao crescimento dos smart glasses e às questões sociais criadas por dispositivos capazes de gravar vídeo através de uma câmera incorporada a uma armação que visualmente se aproxima cada vez mais de um óculos convencional.
Em 8 de setembro, o Guardian relatou preocupações de órgãos de segurança nos Estados Unidos sobre a possibilidade de gravações discretas em determinados ambientes. Poucos dias antes, o Financial Times discutiu justamente o retorno dos smart glasses e a diferença entre a geração atual e tentativas anteriores de popularizar essa categoria.
Por que isso está ganhando destaque?
O produto começa a ultrapassar aquela fase em que tecnologia por si só era suficiente para chamar atenção.
Para conquistar uso cotidiano, um smart glass precisa primeiro funcionar como um bom óculos. Precisa ser confortável, possuir uma aparência aceitável para diferentes contextos, oferecer autonomia razoável e executar funções que realmente economizem etapas do dia a dia.
A aproximação com marcas tradicionais de eyewear teve papel importante nesse processo. Em vez de apresentar necessariamente uma estética de dispositivo eletrônico, os modelos atuais podem se aproximar de silhuetas familiares aos consumidores.
Mas justamente essa semelhança cria o principal problema: quando uma câmera se torna difícil de diferenciar de um óculos convencional, outras pessoas podem não perceber imediatamente que existe a possibilidade de uma gravação.
O debate sobre privacidade, portanto, não é um assunto separado do crescimento da categoria. Ele provavelmente será uma das questões centrais para definir como smart glasses serão utilizados em espaços públicos, empresas, eventos e ambientes privados.
O que isso significa para quem gosta de óculos?
O consumidor passa a precisar avaliar duas categorias de características ao mesmo tempo.
De um lado permanecem os critérios tradicionais: design, encaixe, conforto, lentes, proporção e estilo. Do outro aparecem elementos comuns a produtos eletrônicos: bateria, atualizações de software, compatibilidade com smartphones, recursos disponíveis, privacidade e expectativa de suporte no longo prazo.
Essa união muda profundamente o processo de compra.
Também cria um cenário interessante para o mercado óptico. Conforme a categoria cresce, profissionais e lojas poderão precisar compreender cada vez melhor não apenas materiais e lentes, mas também configurações, conectividade e diferenças entre plataformas.
O ponto mais importante desta semana talvez seja justamente esse: smart glasses começam a ser tratados menos como curiosidade futurista e mais como uma categoria real de produto. E categorias reais precisam enfrentar questões reais — entre elas utilidade, confiança e privacidade.
O que essas tendências mostram?
Os três assuntos desta semana apresentam caminhos bastante diferentes, mas existe uma conexão entre eles: todos ampliam aquilo que um óculos pode representar.
O wraparound transforma o acessório em protagonista visual e aproxima definitivamente referências esportivas da moda. A personalização permite que uma mesma armação acompanhe diferentes momentos e identidades. Os smart glasses acrescentam uma nova camada ao produto, na qual software e serviços digitais passam a dividir espaço com design e construção óptica.
Para o consumidor, isso significa mais opções, mas também escolhas mais complexas. Já não basta necessariamente decidir entre preto ou tartaruga, metal ou acetato, redondo ou quadrado. Curvatura, modularidade, tecnologia e até questões de privacidade começam a fazer parte da conversa.
Apesar de toda essa transformação, um princípio continua válido: tendência funciona melhor quando encontra identidade pessoal, conforto e utilidade. O melhor óculos não é necessariamente aquele que representa de maneira mais literal o que está em alta, mas aquele que consegue traduzir uma tendência para a realidade de quem vai utilizá-lo.
E o Radar desta semana deixa uma pista importante sobre os próximos anos: o eyewear está deixando de ser uma categoria definida apenas pelo formato da armação. Cada vez mais, ele se aproxima de moda, experiência, expressão pessoal e tecnologia ao mesmo tempo.
Fontes consultadas
- ELLE Australia — Your Favourite Fashionable Celebrities Are All Wearing These Trending Sunglasses — 9 de setembro de 2026
- InStyle — Kendall Jenner Wears Polarizing Sculptural Sunglasses at Her First Venice Film Festival — 5 de setembro de 2026
- Portal Opticanet — iGreen: o novo luxo é poder escolher — 9 de setembro de 2026
- Android Central — Ray-Ban Meta glasses update makes them more useful on the go — setembro de 2026
- The Guardian — US police fear Meta smart glasses could be used to secretly record them — 8 de setembro de 2026
- Financial Times — Will the 'glassholes' finally win? — setembro de 2026
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